NR-1 e riscos psicossociais: como sua empresa deve se preparar em 2026

Nos últimos anos, a saúde mental deixou de ser um tema restrito ao bem-estar individual para ocupar um lugar estratégico na gestão das empresas. O crescimento dos casos de ansiedade, estresse crônico, síndrome de burnout e outros transtornos relacionados ao trabalho trouxe um novo desafio para organizações de todos os portes: criar ambientes mais seguros não apenas do ponto de vista físico, mas também emocional.
Os números reforçam essa realidade. Segundo o Ministério da Previdência Social, em 2025 foram concedidos 546.254 benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais, um crescimento de 15,66% em comparação com 2024, quando foram registrados 472.328 afastamentos. Entre os diagnósticos mais frequentes estão os transtornos ansiosos e os episódios depressivos, que continuam liderando os afastamentos no país. As mulheres representam 63,46% dos benefícios concedidos, demonstrando um impacto ainda mais expressivo sobre essa parcela da população trabalhadora.
Além dos impactos individuais, esses afastamentos geram consequências diretas para as empresas, como aumento do absenteísmo, queda de produtividade, rotatividade de colaboradores, elevação dos custos trabalhistas e previdenciários, além de riscos jurídicos e danos à reputação institucional.
Nesse contexto, a atualização da NR-1 (Norma Regulamentadora nº 1) reforça a necessidade de uma gestão preventiva e estruturada dos riscos ocupacionais, incorporando também os riscos psicossociais que afetam diretamente a saúde mental dos trabalhadores. A norma amplia a responsabilidade das organizações na identificação, avaliação e controle desses fatores, fortalecendo uma cultura de prevenção e cuidado.
O que é a NR-1?
A NR-1 é a norma que estabelece as disposições gerais sobre Segurança e Saúde no Trabalho no Brasil. Ela funciona como uma base para todas as demais Normas Regulamentadoras, definindo responsabilidades, direitos, deveres e diretrizes relacionadas à prevenção de acidentes e doenças ocupacionais.
A versão atualizada da norma, que teve alterações com vigência a partir de 26 de maio de 2026, reforça a necessidade de uma abordagem mais ampla sobre os riscos presentes no ambiente de trabalho.
Entre os principais conceitos fortalecidos pela norma estão:
Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO);
Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR);
Capacitação contínua dos trabalhadores;
Gestão documental digital;
Identificação e controle de riscos físicos, químicos, biológicos, ergonômicos e psicossociais.
O objetivo é garantir que as empresas atuem de forma preventiva, reduzindo riscos e protegendo a integridade física e mental dos colaboradores.
O papel do GRO e do PGR na prevenção de riscos
Um dos pilares da NR-1 atualizada é o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO). O GRO consiste em um processo contínuo e sistemático de identificação, avaliação, controle e monitoramento dos riscos existentes nas atividades da empresa.
Na prática, o gerenciamento ocorre por meio do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), documento obrigatório que reúne informações sobre os perigos existentes no ambiente de trabalho e as medidas adotadas para controlá-los.
A atualização da NR-1 reforça que esse gerenciamento deve considerar não apenas riscos físicos, mas também fatores que possam comprometer a saúde mental dos trabalhadores.
O que muda na prática com a NR-1 atualizada?
A principal mudança está na ampliação da visão sobre os riscos ocupacionais. Historicamente, muitas empresas concentravam esforços na prevenção de acidentes físicos e doenças relacionadas à exposição a agentes químicos, biológicos ou ergonômicos. Agora, os riscos psicossociais passam a exigir atenção cada vez maior, por exemplo:
Excesso de cobrança;
Metas inalcançáveis;
Sobrecarga de trabalho;
Assédio moral;
Falta de apoio da liderança;
Ambientes de conflito constante;
Jornadas excessivas;
Falta de clareza nas funções;
Embora a norma não determine uma metodologia única para avaliação desses fatores, ela reforça a necessidade de que as empresas adotem mecanismos capazes de identificar situações que possam comprometer o bem-estar emocional dos trabalhadores.
O que as empresas precisam fazer para se adequar à NR-1?
A adequação exige organização, planejamento e acompanhamento contínuo.
Entre as principais medidas recomendadas estão:
1. Realizar um diagnóstico interno
O primeiro passo é identificar os riscos presentes no ambiente de trabalho. Além dos riscos físicos, químicos, biológicos e ergonômicos, é fundamental mapear fatores que possam afetar a saúde mental dos colaboradores, como sobrecarga de trabalho, falhas de comunicação, conflitos interpessoais e outros riscos psicossociais. Nesse processo, a utilização de formulários anônimos pode ser uma estratégia eficaz para coletar percepções, incentivar a participação dos trabalhadores e obter um diagnóstico mais preciso da realidade organizacional.
2. Atualizar o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR)
As informações levantadas devem ser incorporadas ao PGR, garantindo que o documento reflita a realidade da empresa e contemple medidas preventivas adequadas.
3. Capacitar trabalhadores e lideranças
A NR-1 reforça a obrigatoriedade dos treinamentos previstos nas normas regulamentadoras. Essas capacitações podem ocorrer de forma presencial, à distância ou em formato híbrido. O importante é garantir a presença e facilitar a aprendizagem dos participantes.
4. Emitir e armazenar certificados
Após a realização dos treinamentos, a empresa deve emitir certificados e manter registros adequados das capacitações realizadas. Esses documentos podem ser armazenados digitalmente, desde que sejam preservados de forma segura, íntegra e acessível para eventual fiscalização.
5. Garantir a rastreabilidade das informações
A gestão documental tornou-se um elemento ainda mais relevante. A empresa deve possuir mecanismos que permitam localizar rapidamente documentos relacionados à SST, treinamentos, registros de inspeções e evidências de conformidade.
6. Revisar práticas de gestão
A prevenção dos riscos psicossociais passa diretamente pela forma como a empresa é gerida. Por isso, vale revisar aspectos como:
Modelos de liderança;
Políticas internas;
Processos de comunicação;
Distribuição de tarefas;
Avaliação de desempenho;
Gestão de metas.
Saúde mental também é uma questão de gestão
Durante muito tempo, transtornos relacionados ao trabalho foram tratados como questões individuais. Hoje, as evidências científicas mostram que fatores organizacionais como excesso de demandas, comunicação inadequada, falta de autonomia, insegurança no emprego e ambientes tóxicos, exercem influência direta sobre o bem-estar dos colaboradores. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece que condições inadequadas de trabalho representam um risco para a saúde mental e estima que 12 bilhões de dias de trabalho são perdidos todos os anos no mundo devido à depressão e à ansiedade, gerando um impacto econômico de aproximadamente US$ 1 trilhão em perda de produtividade.
A síndrome de burnout, por sua vez, já é reconhecida pela OMS como um fenômeno ocupacional decorrente do estresse crônico no trabalho que não foi gerenciado com sucesso, reforçando que sua origem está relacionada às condições organizacionais e não apenas às características individuais do trabalhador.
Por isso, é importante abandonar a ideia de que problemas emocionais representam falta de capacidade ou fragilidade pessoal. Pesquisas internacionais indicam que 76% dos trabalhadores já experimentaram burnout pelo menos uma vez, e que esse cenário está associado a maior absenteísmo, aumento da rotatividade e redução da produtividade.
Empresas que promovem ambientes psicologicamente seguros e investem em saúde mental tendem a apresentar:
Maior engajamento e satisfação dos colaboradores;
Redução do absenteísmo e da rotatividade;
Aumento da produtividade e da colaboração entre equipes;
Menor exposição a passivos trabalhistas e riscos reputacionais;
Uma cultura organizacional mais saudável, sustentável e preparada para o crescimento.
Quais são os riscos de não cumprir a NR-1?
Ignorar as exigências da NR-1 pode gerar consequências significativas para o negócio. Entre os principais riscos estão:
Multas administrativas: Auditorias e fiscalizações podem resultar em penalidades financeiras para empresas que não comprovarem conformidade com as exigências da norma.
Passivos trabalhistas: A ausência de medidas preventivas pode fortalecer ações judiciais relacionadas a doenças ocupacionais, assédio e danos morais.
Afastamentos e aumento de custos: Problemas de saúde mental frequentemente resultam em afastamentos prolongados, impactando diretamente a produtividade e aumentando custos operacionais.
Danos reputacionais: Empresas associadas a ambientes de trabalho inadequados podem sofrer desgaste perante o mercado, dificultando a atração de talentos e a construção de novas parcerias.
Redução da produtividade: Equipes emocionalmente sobrecarregadas tendem a apresentar menor desempenho, mais erros e menor capacidade de inovação.
Empresas sólidas cuidam das pessoas e dos processos
A atualização da NR-1 representa uma evolução importante na forma como as organizações enxergam a Segurança e Saúde no Trabalho. Mais do que atender exigências legais, a norma estimula uma cultura preventiva capaz de reduzir riscos, fortalecer a produtividade e proteger a sustentabilidade dos negócios.
A inclusão dos riscos psicossociais reforça uma realidade cada vez mais evidente: empresas financeiramente saudáveis também precisam ser emocionalmente saudáveis. Investir em prevenção, capacitação, organização documental e gestão responsável é uma forma de proteger a empresa contra passivos, fortalecer a conformidade e promover um ambiente de trabalho mais seguro para todos.
No Imobanco, acreditamos que uma gestão eficiente começa pela construção de processos seguros, sustentáveis e preparados para os desafios do futuro. Continue acompanhando nossos conteúdos e mantenha sua empresa atualizada sobre temas que impactam diretamente sua operação, crescimento e competitividade.
Texto: Monalisa Peixoto - Coordenadora de Marketing





